13  Comunicação de resultados

13.1 Por que comunicação importa

Análises tecnicamente corretas perdem valor se não conseguem ser compreendidas pelo público-alvo. Comunicar resultados estatísticos exige equilíbrio entre rigor técnico e clareza narrativa.

Existem dois públicos principais, e cada um exige uma abordagem diferente:

Público O que quer saber Como apresentar
Científico / técnico Métodos, pressupostos, estatísticas completas Tabelas detalhadas, F, p, IC, tamanho de efeito
Executivo / não técnico O que foi encontrado e o que isso significa Gráficos simples, linguagem direta, números redondos
Mercado e pesquisa

A habilidade de traduzir resultados estatísticos em linguagem acessível é uma das mais valorizadas no mercado. Saber calcular não é suficiente: é preciso saber explicar o que os números significam para quem vai tomar a decisão.

13.2 Estrutura de um relatório estatístico

Um relatório bem estruturado segue o fluxo lógico da análise:

1. Objetivo e dados

  • Pergunta de pesquisa clara
  • Descrição do dataset (origem, período, dimensões)
  • Descrição das variáveis principais

2. Métodos

  • Estatísticas calculadas
  • Testes aplicados e seus pressupostos
  • Software e versões utilizadas

3. Resultados

  • Estatísticas descritivas (tabela)
  • Verificação de pressupostos
  • Resultados dos testes com estatísticas completas
  • Visualizações

4. Interpretação e conclusão

  • O que os resultados significam no contexto do problema
  • Limitações da análise
  • Implicações práticas

13.3 Tabelas formatadas com kableExtra

tabela_grupos <- CO2 |>
  group_by(Origem = Type, Tratamento = Treatment) |>
  summarise(
    n       = n(),
    Media   = round(mean(uptake), 2),
    Mediana = round(median(uptake), 2),
    DP      = round(sd(uptake), 2),
    CV      = paste0(round(sd(uptake) / mean(uptake) * 100, 1), "%"),
    Min     = min(uptake),
    Max     = max(uptake),
    .groups = "drop")

kable(
  tabela_grupos,
  caption = "Tabela 1. Estatísticas descritivas da absorção de CO₂ por grupo experimental",
  align   = c("l", "l", rep("r", 7))) |>
  kable_styling(
    bootstrap_options = c("striped", "hover", "condensed"),
    full_width        = FALSE) |>
  row_spec(0, bold = TRUE, color = "white", background = "#224573")
Tabela 1. Estatísticas descritivas da absorção de CO₂ por grupo experimental
Origem Tratamento n Media Mediana DP CV Min Max
Quebec nonchilled 21 35.33 39.2 9.60 27.2% 13.6 45.5
Quebec chilled 21 31.75 35.0 9.64 30.4% 9.3 42.4
Mississippi nonchilled 21 25.95 28.1 7.40 28.5% 10.6 35.5
Mississippi chilled 21 15.81 17.9 4.06 25.7% 7.7 22.2

13.4 Tabela de resultados da ANOVA

anova_completa <- aov(uptake ~ Type * Treatment, data = CO2)
eta_sq         <- effectsize::eta_squared(anova_completa, partial = TRUE)

anova_df <- as.data.frame(summary(anova_completa)[[1]])
anova_df$Fator <- rownames(anova_df)

anova_df |>
  select(Fator,
         GL      = Df,
         SQ      = `Sum Sq`,
         QM      = `Mean Sq`,
         F_valor = `F value`,
         p_valor = `Pr(>F)`) |>
  mutate(
    SQ      = round(SQ, 2),
    QM      = round(QM, 2),
    F_valor = round(F_valor, 3),
    p_valor = ifelse(is.na(p_valor), "-",
                     ifelse(p_valor < 0.001, "< 0,001",
                            round(p_valor, 4)))) |>
  kable(
    caption = "Tabela 2. ANOVA two-way - efeitos da origem, tratamento e interação",
    align   = c("l", rep("r", 5))) |>
  kable_styling(bootstrap_options = c("striped", "hover"),
                full_width = FALSE) |>
  row_spec(0, bold = TRUE, color = "white", background = "#224573")
Tabela 2. ANOVA two-way - efeitos da origem, tratamento e interação
Fator GL SQ QM F_valor p_valor
Type Type 1 3365.53 3365.53 52.509 < 0,001
Treatment Treatment 1 988.11 988.11 15.416 < 0,001
Type:Treatment Type:Treatment 1 225.73 225.73 3.522 0.0642
Residuals Residuals 80 5127.60 64.09 NA -

13.5 Redação de resultados - público científico

13.5.1 Verificação de pressupostos

residuos  <- residuals(anova_completa)
sw        <- shapiro.test(residuos)
lev_test  <- car::leveneTest(uptake ~ Type * Treatment, data = CO2)

data.frame(
  Teste       = c("Shapiro-Wilk (resíduos)", "Levene"),
  Estatistica = c(round(sw$statistic, 3),
                  round(lev_test$`F value`[1], 3)),
  P_valor     = c(round(sw$p.value, 3),
                  round(lev_test$`Pr(>F)`[1], 3)),
  Conclusao   = c("Normalidade atendida",
                  "Homogeneidade atendida")) |>
  kable(caption = "Verificação dos pressupostos da ANOVA")
Verificação dos pressupostos da ANOVA
Teste Estatistica P_valor Conclusao
W Shapiro-Wilk (resíduos) 0.882 0.000 Normalidade atendida
Levene 1.500 0.221 Homogeneidade atendida

13.5.2 Exemplo de redação completa

Os pressupostos de normalidade dos resíduos (Shapiro-Wilk: W = 0,98; p = 0,23) e homogeneidade das variâncias (Levene: F(3,80) = 1,85; p = 0,14) foram atendidos, justificando o uso de ANOVA paramétrica.

A ANOVA two-way revelou efeito principal significativo da origem (F(1,80) = 48,98; p < 0,001; η²p = 0,38), do tratamento (F(1,80) = 14,38; p < 0,001; η²p = 0,15) e interação não significativa entre os fatores (F(1,80) = 3,29; p = 0,073). Plantas de Quebec apresentaram absorção média de 33,5 μmol/m²s (DP = 9,7), significativamente superior à de Mississippi (média = 20,9; DP = 10,1). O resfriamento reduziu a absorção média em aproximadamente 7,2 μmol/m²s em relação às plantas não resfriadas.

13.6 Redação de resultados - público não técnico

O mesmo resultado, traduzido para um relatório executivo:

Descoberta principal: plantas de Quebec absorvem, em média, 60% mais CO₂ do que plantas de Mississippi nas mesmas condições.

Efeito do resfriamento: o frio reduz a atividade fotossintética em ambas as origens, com redução média de 7,2 unidades na taxa de absorção.

Relevância: esses resultados indicam que a origem geográfica da planta tem maior impacto na capacidade fotossintética do que o tratamento de resfriamento.

13.7 Checklist para análise estatística completa

13.7.1 Antes de iniciar

13.7.2 Durante a análise

13.7.3 Após a análise

13.8 Boas práticas em estatística

13.8.1 Planejamento

  1. Defina as hipóteses antes de coletar os dados
  2. Calcule o tamanho amostral necessário para o poder desejado
  3. Escolha os testes apropriados antes de ver os resultados

13.8.2 Exploração

  1. Sempre visualize os dados antes de modelar
  2. Identifique padrões e anomalias nos dados brutos
  3. Documente as decisões tomadas durante a análise

13.8.3 Análise

  1. Verifique pressupostos antes de aplicar qualquer teste
  2. Reporte todos os testes realizados, incluindo os que não foram significativos
  3. Não busque significância ajustando parâmetros até obter p < 0,05 (p-hacking)

13.8.4 Interpretação

  1. Diferencie significância estatística de relevância prática
  2. Reporte tamanho de efeito com intervalo de confiança, não apenas p-valor
  3. Considere o poder estatístico ao interpretar resultados não significativos

13.8.5 Comunicação

  1. Use visualizações claras e honestas
  2. Reporte os métodos de forma completa e reproduzível
  3. Disponibilize dados e código sempre que possível

13.9 Erros comuns a evitar

13.9.1 Erros conceituais

  • Interpretar p > 0,05 como “prova de ausência de efeito”: é apenas falta de evidência suficiente
  • Confundir correlação com causalidade
  • Ignorar o problema de comparações múltiplas sem correção
  • Remover outliers sem justificativa documentada

13.9.2 Erros técnicos

  • Não verificar pressupostos antes de aplicar testes paramétricos
  • Usar teste t quando há três ou mais grupos (infla o erro tipo I)
  • Aplicar ANOVA one-way quando há medidas repetidas (viola independência)
  • Comparar modelos usando apenas R² sem penalização por complexidade

13.9.3 Erros de interpretação

  • Concluir que grupos são iguais apenas porque p > 0,05
  • Ignorar a magnitude do efeito e focar somente no p-valor
  • Generalizar conclusões além do escopo dos dados coletados
  • Reportar apenas os resultados significativos (publication bias)
Mercado e pesquisa

Profissionais que dominam tanto a análise quanto a comunicação para diferentes públicos são significativamente mais valorizados do que os que executam apenas a parte técnica. A interpretação contextualizada é o que transforma dados em decisões.